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Sobre a dinâmica das redes sociais, mais precisamente das redes sociais de relacionamento, sejam esses voltados mais para relacionamentos reais ou mais pra putaria, eu andei pensando:

Primeiro, como é estranha nossa dinâmica amorosa. Eu atualmente uso o Tinder e o Adote um Cara. Não uso porque eu realmente ache que vá achar amor ou porque eu esteja realmente procurando um casinho. Entrei pra me divertir, fiz contatos legais e decidi ficar. Pra mim, ainda tem a vantagem de, como sou tímido e desajeitado pra contatos iniciais, eles servem como um ambiente menos agressivo e imediato que o contato face a face. Facilita. Ainda assim, espanta como os pressupostos mais básicos são ignorados ao ponto de causarem dor e raiva quando relembrados. Pensa só: você entra nesses negócios e sai curtindo (cada um tem seu nome, mas a ação é sempre quase a mesma) um monte de gente. Algumas dão certo, outras não. É seguro dizer que a pessoa média não vai conversar com uma pessoa só. Você conversa com várias. Então diga que você conversa com três meninas no Tinder e três no Adote um Cara. Não está apaixonado por ninguém e não existe nem essa pretensão ainda. As seis, você está “conhecendo”. Mas são seis pessoas diferentes que você está conversando em redes sociais cuja a premissa é a interação amorosa e/ou sexual. E vai saber o que essas pessoas estão pensando, vai saber como elas te veem! Há chances reais de que mais de uma esteja vislumbrando ao menos te encontrar e talvez até ficar contigo. Algumas podem, inclusive, estar pensando em talvez algo mais (Pode ser também que nenhuma delas esteja pensando em nada, não excluo a possibilidade, ela só não serve pra reflexão). Há um potencial caótico delas descobrirem umas sobre as outras e se magoarem (ou não). Ao mesmo tempo, eu duvido muito que elas não estejam falando com outros caras. A roleta gira pros dois lados. Mas aí você entra no mesmo vórtice: você não sabe a quantas andam as conversas delas com esses prováveis “candidatos” e você pode ser “abandonado” a qualquer momento, independentemente de como você se sinta a respeito da menina. E se ela decidir que gosta mais de um do que dos outros e decide focar só nele, dá pra culpar ela? Ou se ela decidir ficar com mais de um, ou mesmo com todos ao mesmo tempo, num contrato social de “no strings attached”, dá pra culpar ela? Ou dá pra te culpar, se você fizer o mesmo? A proposta só seguiu seu curso, só cumpriu seu objetivo. Mesmo assim, nós solenemente ignoramos as probabilidades pela ignorância da reflexão incompleta. Não lemos as letras pequenas implícitas no fato social e somos surpreendidos pelo óbvio. Não duvido que seja o que mais acontece. Na verdade, acho que é a segunda coisa que mais acontece. A primeira seria você se ligar em alguém e completamente abandonar todas as outras pra trás, “talvez para sempre” (Veja, 2013). Você não se importa com o que aquelas pessoas abandonadas vão sentir. Não importa porque não faz parte do contrato. O outro não faz parte do contrato. Só você faz. E esse é outro pressuposto que nós solenemente ignoramos. Tá lá, nas entrelinhas da lógica, mas a gente não vê.

De novo, eu não sou contra essas paradas. Eu uso e acho divertidíssimo. Como sempre tento fazer, to lá pelo rolê. Quem sabe não rolam amizades? É possível, eu não excluo. Não é provável, então não espero ser amigo de ninguém. Mas é um tanto irônico que, para o relacionamento que teria que ser mais íntimo e solidário (no sentido de se pensar no outro) “talvez de todos” (Veja, algum dia no futuro?), nós buscamos os meios mais egoístas e impessoais (parece sinônimo, mas não é) de obtê-lo. E eu não sou ingênuo de achar que seja assim só online. Chamar um desconhecido pra sair, como era há 10, 15 anos, ou mesmo pegar alguém na balada é uma modalidade diferente do mesmo fato social. São contratos com letras miúdas que nós só lemos depois que entramos pelo cano. E aí o outro é culpado de não saber que você, lá no fundo e sem nunca dizer, pensava ou deixava de pensar, sentia ou deixava de sentir. Parece que não ler contratos é uma prática aparentemente recorrente e irrestrita da vida.

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