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Ela se levantou e se foi. Simples assim, calças, camisa e sapatos. Nenhum olhar pra trás ou despedida. Como o fim esperado de um ciclo desnecessário.
Ele ficou. Olhava para as paredes, criado-mudo, quadros, espelho. Tudo estava igual. Tudo havia mudado. O quarto tinha um tom sépia, que parecia contagiar a vida. Os lençóis sinalizavam a falta. Estava tudo acabado e ele não sabia que dia era. Quantos meses se passaram? Três? Impossível dizer. Parecia uma longa noite. Se sentia no crepúsculo de um dia nublado. Como após de uma tempestade de lágrimas. Ela o deixara como todas as outras, mas essa era especial. Tinha dado tudo o que tinha e não sabia exatamente o que tinha ficado por dentro. Cada movimento era feito em slow motion. O cheiro dela impregnava o lugar como uma risada maldosa. Piscava e via cabelos pretos e lábios vermelhos, como fantasmas que pareciam insistir em não partir. Ouvia pianos e violinos. Sinfonias de ausência em ré menor. A mente vazia, o corpo sem ação. Respirava algo menos reconfortante que o ar. Os dois tinham sido um há tão pouco tempo que se sentia pela metade.
Levantou. Caiu sentado de volta na cama. Passou os dedos pelo cabelo. Teria esquecido como andar? Não era possível. Respirou fundo e não achou muito ar. Levantou e teve mais sorte desta vez. Conseguiu se equilibrar aos trancos e barrancos. Um passo. Mais um passo e ganhou alguma segurança, como uma criança que aprende a andar. Mais alguns passos e saiu pela porta entreaberta sem olhar pra trás, como se veria lembranças ao invés do quarto vazio. Saiu como se fugisse da solidão.

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