A verdade não é fácil. Não é fácil, nem bonita, nem agradável.
Independente da sua verdade, no fundo mais profundo, não é.
Tive uma das conversas mais difíceis da minha vida agora. Talvez a mais difícil. Nunca previ que teria esse tipo de resultado.
Existem coisas na Bíblia que são simplesmente factuais, não abrem margem pra discussão. Coisas assim nos fazem pensar nas mais profundas bases do ser humano.
Como lidar com uma situação de onde não se tem mais que uma saída?
A humanidade está mais acostumada com isso, ter mais de uma saída, do que percebemos de verdade. Sempre buscamos a saída mais fácil, a que dói menos, a que machuca menos pessoas.
Quando não há essa opção, e como eu disse antes existem situações em que não há mais de uma opção, perdemos o chão. Não sabemos lidar com uma situação que nos oferece ou o comprometimento ou a punição.
Hoje, mais do que nunca, percebi que não precisamos lidar. Situações sem escolha fácil não foram feitas pra se lidar. Situações sem escolha fácil não foram feitas nem mesmo pra que se fizesse uma escolha. Quando alguém aponta uma arma pra tua cabeça e pergunta se você quer viver, é uma pergunta é retórica. Quando te perguntam se você prefere ir pro céu ou pro inferno também, por menos que pareça. Vamos esclarecer uma coisa aqui: NINGUÉM, se falar realmente sério, se imagina indo pro lugar de perdição de sua crença. Toda crença tem uma expectativa, mesmo o ateísmo. Um ateu espera morrer e fim. Um budista espera alcançar o nirvana. Um cristão espera ir para o céu. E se você perguntar pra qualquer um, você vai receber exatamente essa resposta. Acredita-se sempre na expectativa da crença. Nenhum ateu, se perguntado sobre pra onde vai quando morrer, vai responder que vai para o inferno. Não se estiver falando sério. Da mesma forma, nenhum cristão vai responder que vai pro inferno, nenhum hindu acredita que vai reencarnar numa barata, etc. Isso, em si, não é o problema. Leva ao problema, mas não o é, ainda.
O ser humano tem a necessidade de sentir que está fazendo o melhor que pode, mesmo consciente que não está. Isso é intrínseco. O problema é que, por isso, nos recusamos a tomar conhecimento da realidade de que não estamos nem perto do esforço mínimo para uma mudança de vida e começamos a mentir para nós mesmos. Não admitimos essa estagnação porque, se admitirmos, vamos sentir a necessidade imensurável de mudar essa situação e, bom, alguém conhece a lei do mínimo esforço?
Hoje tive que amargar o ouvir uma pessoa passar um bom tempo tentando se justificar pra si mesmo sobre o fato de que a vida que ela tem levado vai leva-la para o inferno e ela sabe disso. Ela tentava se consolar com argumentos como “Pelo menos, Deus vai levar em conta que eu estou sendo sincero com os meus sentimentos. Posso não estar sabendo lidar com eles e sei que vou para o inferno, mas pelo menos Ele vai me dar esse mérito”. Era óbvio que ela não conseguia. O pior foi que ela tentava desesperadamente me mostrar que estava de acordo com o seu futuro, mas não está. Ninguém estaria. O ser humano não consegue, de verdade, lidar com a perdição definitiva.
Levo em conta que essa pessoa nunca aprendeu que o viver pra Deus é realmente se negar, que Deus leva, sim, em conta o esforço que se faz contra a própria vontade. Entendo que ela não conhece o conceito de mortificar a carne. Também não quis trazer a tona porque sei que ela se fecharia para mim, que aquilo tudo já era informação além do que ela conseguia aguentar de uma vez só.
Uma das verdades básicas da minha relação com Deus é que eu não preciso concordar com Deus em todos os aspectos, mas eu tenho que aceitar as regras dele, porque foi Ele mesmo quem criou o “jogo”.
Quero dizer, um dos conceitos básicos do cristianismo é a soberania de Deus. É, talvez, o conceito mais difícil de se aceitar, apesar de ser incrivelmente fácil de se entender. Explicando: Deus é o primeiro ser a existir. Aliás, Deus sempre existiu (aí já começa a complicação, já que a lógica humana não comporta um ser que não tem um início no tempo). Além disso, Deus é o retentor de todo e qualquer tipo de poder existente em qualquer tipo de lógica e em toda a sua totalidade (obviamente, um conceito amplo demais para nossas minúsculas mentes comportarem). Também, Deus criou as “regras do jogo” antes mesmo de criar o “tabuleiro” (leia-se o universo) ou as peças (leia-se a humanidade ou qualquer forma de vida). Deus não pediu permissão ou opinião sobre como as regras seriam. Ele tampouco assinou um contrato onde dava aos jogadores qualquer direito de alterarem as regras. Ele não precisa disso. E, quanto a nós, não é direito nosso exigir qualquer coisa, pois ninguém estava lá quando as regras foram estabelecidas. Ninguém se deu ao trabalho de fazer nada.
O grande problema é que nós estamos acostumados a reclamar de que outros, que são iguais a nós, não tendo nenhum direito ou dever a mais do que nós, têm abusado de nós. E realmente têm. Temos todo o direito de exigir que sejamos tratados igualmente aos que são nossos semelhantes. Aí está a questão. Deus NÃO é nosso semelhante. Ele é melhor, maior, mais inteligente, mais sábio, mais forte, mais poderoso, mais correto, mais merecedor, mais tudo do que nós. Aí vem aqueles que dizem que Deus (a vida, etc.) não é justo. Aí está a questão novamente. Deus é justo. A vida é justa porque foi ele que estabeleceu ela como justa. O que está errado é o nosso conceito de justiça.
Deus não é regido pelos nossos conceitos, nós é que somos regidos pelos conceitos dele.
É por isso que eu acredito que importante pra Deus é que sigamos os preceitos que Ele estabeleceu, não que concordemos com eles. A Bíblia, em momento nenhum, diz que nós temos que concordar com tudo que Deus estabeleceu, mas o centro de toda a Bíblia continua sendo que nós devemos obedecer a tudo que Ele estabeleceu. Duvido imensamente que Deus, no julgamento final, vá me cobrar pelos conceitos que eu discordava dele, mas tenho certeza que Ele vai me questionar o porque eu não segui os que eu não segui.
A atitude a se seguir não é “Deus, eu concordo plenamente contigo”, é “Deus, a tua vontade é soberana, logo eu obedeço”.
A linha é bem fina, mas está lá. Por isso, volto a repetir: Entender não é difícil. Difícil é aceitar. Nós temos a péssima mania de confundir os limites que são muito próximos. Com isso, alguns conceitos básicos se perdem e acarretam danos catastróficos.
Aí está a diferença entre concordar e aceitar. Eis aí a grande questão.
Pra terminar, vou deixar o trecho de a música que, há alguns anos, me fez começar a pensar nisso. Chama-se Clouds, do As Cities Burn.
“I think our god isn’t God, if he fits inside our heads.“
Now Playing: The Devil Wears Prada – Dez Moines